Os estudantes contam com o apoio de toda a população

Neste fim de semana vivenciei duas experiências muito diferentes, mas igualmente importantes para compreender a situação que vive o Chile. Sábado à tarde fui visitar uma pequena comuna, lembre-se que este nome é sinônimo de bairro, distante do centro de Santiago, a mil metros sobre a Cordilheira dos Andes. Era aniversário de uma companheira e tiramos parte do dia para comemorá-lo. Para mim era uma oportunidade de conhecer algo diferente de reuniões, marchas, assembléias e atos.

Ao longo do caminho de quase duas horas, passamos por regiões diferentes de Santiago. Mas ao longo de todas elas haviam faixas, cartazes e bandeiras pendurados nas casas com dizeres relacionados a questão educacional ou algum tema político. Era muito comum haver faixas de pais se solidarizando com seus filhos, como por exemplo “nesta casa todos estão como nossos filhos na defesa da educação”. Este tipo de demonstração pública era algo generalizado.

Ao longo do caminho também víamos muitas escolas ocupadas. Era impressionante. Nas portas eram colocadas barricadas de carteiras para limitar o acesso. Barracas estavam armadas sinalizando que havia gente vivendo ali o tempo todo. E desde o telhado caíam faixas e bandeiras com os dizeres “colégio en toma!”. Muitos equipamentos de educação no Chile estão ocupados, desde universidades, a insitutos de línguas ou escolas.

Em Cajon Del Maipo, além da Cordilheira belíssima repleta de neve, havia muitas pichações em defesa da educação pública e gratuita. Mas me deparei com uma coisa chocante. Meninas muito jovens, pelo menos uma dupla por esquina, caminhavam com uma faixa pedindo ajuda. Ela pediam alguma quantia em dinheiro para comprar um soro aparentemente muito caro. Este soro serviria para socorrer uma amiga delas que estava em greve de fome há três meses por conta da luta dos estudantes. Os médicos haviam dado cerca de três dias de vida para a menina caso ela não tomasse tal soro. E para aqueles que se recusavam a ajudar, as meninas bradavam “nem mesmo com crianças morrendo vocês se importam com a educação em nosso país?”.

Isso me chocou, porque estávamos diante de uma situação limite, onde crianças arriscam literalmente suas vidas por uma causa. A greve de fome não é uma iniciativa isolada no país, há muitas crianças de diversas escolas que estão nesta situação.

Neste momento passei a me perguntar com maior força “o que se passa com esse país?”.

Hoje pela manhã dei mais um passo para responder esta pergunta. Fui à Marcha da Família. A semelhança com qualquer atividade brasileira está apenas no nome. Foi uma marcha convocada pelos sindicatos e organizações populares para reunir todos em defesa da educação. Por conta do trabalho ou ocupações diárias muitas pessoas não podem participar dos atos ao longo da semana. Portanto, neste domingo milhares de pessoas sairam de seus bairros rumo ao parque central da cidade para manifestar-se. Aos paulistas, imaginem muitíssimas pessoas marchando em grandes colunas desde cada bairro rumo ao Ibirapuera. Pois é, a situação era mais ou menos assim.

Ao Parque O`Higgins chegavam muitas caravanas portando faixas, bairro tal em defesa da educação gratuita, sindicato tal com a luta dos estudantes em defesa do direito dos trabalhadores, assim em diante. Por volta do meio dia havia mais de 200 mil pessoas cantando y va a caer, y va a caer la educación de Pinochet. Era arrepiante. Ali percebi que os estudantes são a linha de frente da luta contra a política educacional de Piñera, mas este é o sentimento de toda a sociedade.

A questão educacional é a ponta do iceberg e sua grave situação favoreceu para que todos se colocassem em luta contra o atual modelo de educação. Mas pouco a pouco muitos se somam a ela com suas próprias pautas. Trabalhadores por melhores salários, ambientalistas em defesa da Patagônia, grupos de direitos humanos contra a exploração infantil. Mas todos têm um ponto em comum, não aguentam mais este sistema político-econômico falido e seus representantes, como o próprio Piñera.

A consciência política neste momento é elevadísima e a maioria está disposta a romper seus próprios limites para mudar esta sociedade.Hoje finalmente a CUT (Central Única dos Trabalhadores do Chile) e a CONFECH convocaram atos unificados. Agora os dias 24 e 25 contarão com trabalhadores e estudantes unidos tomando as ruas de Santiago. Serão dias decisivos.

E a ansiedade para eles só aumenta. Pelo menos a minha, a de vocês não? Digo isso porque se a população chilena consegue derrotar o seu governo e abrir um processo completamente novo em seu país, estou segura que todo o Cone Sul também será diferente. Torcemos pelos hermanos!

Abraço entusiasmado,
Thalie

Em tempo, estou escrevendo com um teclado espanhol e em um word que traduz diretamente para esta língua, desculpem o portuñol ou alguns erros.

“Estudantes combatentes de ontem, hoje e amanhã. Com a memória viva e a esperança intacta. Juntos somos mais!”

Ontem estive na ocupação da Universidade do Chile. Saindo do metrô próximo à U. Chile (eles aqui raramente dizem a palavra universidade, apenas colocam a letra U na frente dos nomes) percebi a situação de grande atividade política. A universidade está ocupada desde o começo dos protestos e é a principal do ponto de vista das iniciativas de luta. Todos os cursos estão paralisados, professores e funcionários apoiam o movimento. As principais lideranças da CONFECH (Confederação Nacional dos Estudantes Chilenos), aquela presidida pela Camila Vallejos, são da U. Chile.

Na calçada havia muitas faixas, bandeiras, dizeres pintados nas paredes. O que mais me chamou a atenção dizia “Estudantes combatentes de ontem, hoje e amanhã. Com a memória viva e a esperança intacta. Juntos somos mais!”.

Dentro da universidade muitas barracas, havia evidentemente um grande acampamento que mantinha ocupada a universidade. Gente de toda a sorte circulava por lá. Havia um festival de arte organizado pela toma, por sinal muito bem organizado, que atraía muita gente para dentro da universidade.

Logo entramos no principal auditório onde aconteceria a assembléia. Dos tempos de Allende, recuperou-se a proposta política de assembléias comunais. Em Santiago as comunas são como bairros e o movimento estudantil tenta impulsionar reuniões através das quais se organizaria todos os setores da população. Imaginem só vocês, esta proposta não parece uma loucura porque a situação política do país permite mesmo este tipo de organização. Dessa forma, tem ocorrido muitas assembléias pelo Chile que de fato reúnem diversos setores em luta.

Pude acompanhar por enquanto apenas uma, a da região central de Santiago que se reúne na U. Chile. A assembléia de ontem foi convocada para debater a proposta de plebiscito que está colocada como uma das principais iniciativas para tirar o movimento atualmente do impasse.

A luta da juventude passa por um momento de muita indefinição. Estão há três meses muito mobilizados, conquistaram o apoio da população, mas hojem vivem um grande dilema, pois se não avançarem correm o risco de retroceder. Até agora o o governo apresentou propostas irrisórias de mudanças na lei educacional que foram amplamente rechaçadas pelo movimento. Com a intransigência do governo, aprofundar o movimento e lograr conquistas aparece como principal dilema.

Estas próximas semanas serão decisivas para o desenrolar dos acontecimentos. Tive a impressão que a proposta de plebiscito popular é uma boa iniciativa para sair do impasse. Pode ser uma ferramenta que organize todos os setores e ajude a aprofundar o debate entre toda a população, possibilitando um maior enraizamento da política anti-Piñera. Se o plebiscito obtém um grande resultado coloca-se o parlamento e o governo contra a parede mais uma vez.

Portanto, esta é a principal proposta discutida neste momento pelos estudantes. Mas na assembleia pude perceber diferenças na defesa do plebiscito que, na verdade, são grandes diferenças em relação a como conduzir o movimento agora.

A JJCC – Juventude do Partido Comunista do Chile, mais conhecida como a Jota (Rota) possui as principais lideranças da CONFECH. Camila Vallejos é uma delas. A Jota tem uma política muito familiar para nós estudantes que militamos na UNE. Neste momento, como o conjunto dos estudantes das universidades públicas e privadas estão muito radicalizados, a Jota assumiu um discurso bastante de esquerda. No entanto, muitos me relataram que desde o começo os comunistas tentaram montar uma mesa de negociação com o governo para acertar alguns ganhos e por fim ao movimento. Porém, a maioria dos estudantes não confia em nada no governo direitista de Piñera e recusaram a ideia de negociar. Dessa forma, a Jota foi assumindo um discurso anti mesa de negociação, mas aparentemente tenta a todo o tempo colocar em prática esta proposta.

O caso do plebiscito é um deles. Há setores expressivos do movimento estudantil, dentre eles muitos independetes, que defendem que o plebiscito seja convocado pelas entidades estudantis e organizações sociais do povo, como a assembléia comunal. Já a Jota defende que o plebiscito seja oficial. E como este mecanismo não está pervisto na constituição chilena, eles acreditam que a primeira batalha do movimento deva ser por uma reforma política que inclua o plebiscito.

Os estudantes na assembléia, e muitos moradores também, argumentavam que é mais fácil derrubar o governo a conquistar dele um plebiscito oficial. No entanto, a Jota segue defendendo esta política sob um discurso radical de mobilização popular.

Minha impressão é que, na verdade, esta política nada mais é que a tão antiga proposta de negociação, pois transfere para o parlamento a agenda de debates acerca do plebiscito e retira do povo o principal instrumento de mobilização da população neste momento. Dessa forma, o próximo período se daria mais sob acordos entre os setores do parlamento e menos através da auto-organização política do povo. A política da Jota de apostar numa tática de avanço do movimento por dentro do regime estabelecido confunde muitos estudantes. O fato é que este regime é absolutamente controlado pelos aliados de Piñera e a oposição chapa branca da Concertácion, frente política que governou o Chile nos últimos vinte anos. Com esta correlação de forças é impossível obter conquistas que não sejam fruto da intensa luta política nas ruas e nas escolas. E da mobilização generalizada de toda a população.

Para semana que vem, nos dias 24 e 25, está prevista uma greve geral de todos os trabalhadores chilenos. Até lá acredito que muita água deve passar debaixo da ponte e este momento será decisivo para o desenrolar da luta chilena. Acompanharemos de perto e postaremos por aqui.

Saudações a todos,

Thalie

Pequena Nota - Não poderia deixar sem registro a grande conquista da juventude de campinas que conjuntamente com a população conseguiu derrubar o prefeito Hélio, um dos maiores corruptos de nosso estado. A juventude chilena recebeu com muito enstusiamos a notícia. Além disso, soubemos que em Belém do Pará organizamos um bonito ato com cerca de 1000 pessoas contra a construção da usina de Belo Monte. Tenho certeza que a juventude brasileira segue os passos da juventude chilena e também tem tomado seu destino pelas mãos. Com muita alegria e orgulho, estamos Juntos!

O cacerolazo: estudantes secundários saem mais uma vez às ruas

Ontem à noite fazia muitíssimo frio. A baixa temperatura ficava ainda mais insuportável devido à umidade. Como havia chovido todo o dia, o frio penetrava na pele junto com as gotículas de orvalho que caía na noite. Era dolorido estar na rua.

Decidimos sair por volta das 21h para acompanhar os panelaços que estavam convocados para os bairros. Estavámos alojados na casa de uma companheira estudante chilena que se localiza próxima ao bairro mais pobre de Santiago do Chile. Apesar de não lembrar em nada as favelas brasileiras, apelidaram-no de “Grand Favela”. Fomos acompanhar o cacerolazo deste bairro que também é o mais populoso de Santiago.

Pegamos o metrô de superfície, em a cada estação podia-se ouvir o barulho das panelas batendo. A população ia tomando as principais esquinas com suas panelas. Não eram tantos, já haviam tido panelaços maiores nas semanas anteriores – como me explicaram os companheiros – mas pelo frio que fazia , e também pela falta de referência semelhante no Brasil, fiquei impressionada.

No cacerolazo em Punte Alto não havia muitos trabalhadores, mas sim muitas crianças e adolescente. Ai consolidei minha grande surpresa neste país, as crianças e os jovens de até 15 anos são a linha de frente dos protestos. Jovenzinhos se punham a socar as panelas. Tentavam fechar as esquinas parando os carros com suas próprias mãos. Era uma rebeldia contagiante. Voltamos para casa uma hora depois, com o fim do cacerolazo.

Em casa, conheci Benjamin Flores sobrinho de Gabriela Montiglio, a companheira que está me hospedando no Chile. Um jovenzinho de 13 anos que até então era muito parecido com aqueles da mesma idade que conheço no Brasil. Estava diante do computador conversando no msn com seus amigos, pouco queria falar porque estava mais entretido com seu fone de ouvido. Vestia-se também de forma engraçada, calças coloridas, tênis espalhafatosos e longas franjas. Sim, no Chile o tipo Restart também é um sucesso.

Às seis da manhã fui acordada por Benjamin. Precisava pegar em meu quarto as suas botas. Havia um certo alvoroço da parte de sua mãe e avó. Logo percebi porque, Benjamin estava se preparando para ir ocupar mais um colégio secundário. Explicou-me que encontraria seus companheiros – sim, ele me disse assim – da mesma idade para tomar mais uma escola, que havia sido desocupada recentemente pela força policial.

Benjamin está longe de ser uma liderança estudantil, não é engajado em nenhuma organização política ou algo do tipo. Mas assim como tantos, é um daqueles que está diariamente lutando em defesa da educação chilena. Que acordam cedo para ocupar as escolas, que nas marchas montam as barricadas contra a força policial, que saem tarde da noite de casa para cacerolar. E no Chile de 2011, existem milhares de Benjamins.

São muitos mesmos, que cantam com orgulho que vão repetir de ano porque suas escolas estão ocupadas há três meses contra a Educação de Pinochet. Perguntei a Benjamin onde encontrava motivação para tanto, ele me respondeu que sua mãe e seu pai faziam o mesmo contra a ditadura e que agora é sua vez. Benjamin saiu entusiasmado, contando a todos como seria a tomada da escola de hoje. Sua vó beijou-o no rosto e desejou-lhe sorte. Ao fechar a porta o jovenzinho deixou para trás adultos cheios de orgulho e esperança.

por Thalie Drumond