Hasta la Vitoria!

Ontem foi um dia muito importante para os chilenos. Em todo o país ocorreu a maior marcha em 30 anos, desde a queda da ditadura de Pinochet. Aqui em Santiago se quer pude chegar ao ponto de concentração. Era impossível superar a quantidade de pessoas que ocupava as principais ruas da capital. Assim, era também difícil calcular o total de indignados reunidos. Porque uma única rua era insuficiente para todo mundo. Ocupávamos as vias principais, suas travessas, as avenidas paralelas.

O governo de Piñera proibiu que a marcha seguisse pela Alameda Libertador O´Higgins, a principal de Santiago e onde se localiza o Palácio da La Moneda. Mas quem disse que o governo tem alguma autoridade por aqui? As pessoas ignoraram a “recomendação” e fizeram quase toda a marcha por ai. Não houve repressão. Apenas em pequenos ponto isolados. Provavelmente porque o governo percebeu que reprimir um número tão alto de pessoas significaria entregar numa bandeja a cabeça de Piñera.

As pessoas foram às ruas com toda forma de expressão. Eram grupos de teatro, bandas de todo o tipo de música, artistas de circo, gente lutando artes marciais. Sempre topávamos com alguma encenação e muita gente assistindo. Toda a forma de manifestação era válida. Os pais levavam seus filhos fantasiados. Os velhinhos que não puderam estar na marcha de suas janelas sinalizavam sua solidariedade, tocando panelas, flamulando bandeiras, apenas acenando. Os carros buzinavam. Era tão explícito que a forma mais correta de se manisfestar era tomando as ruas de alguma forma que todos fizeram isso.

A paralisação do dia 25 de agosto com certeza reuniu milhões. O governo disse que eram apenas 50 mil. Este devia ser o número de reunidos apenas nos arredores do La Moneda. Mas mesmo que fossem 50 mil, o que se passa para que este número enorme de pessoas esteja tomando às ruas em plena quinta-feira, presidente?

Bom, o Chile vive uma ebulição social. O desgaste do governo e de Piñera é irreversível. A consciência política e o nível de participação do povo também. O país vivencia uma crise que coloca em xeque o modelo de país construído na transição da ditadura militar. Todos começam a perceber que caiu a ditadura, mas o sistema político e econômico manteve o seu sentido geral. Não é a toa que os chilenos identificam o atual governo com o próprio Pinochet. É preciso conquistar no Chile mudanças profundas,  que possibilitem a participação política efetiva, um modelo econômico capaz de solucionar os principais problemas do povo, um sistema educacional gratuito e de qualidade, entre tantas outras coisas.

A geração de jovens que hoje protagoniza uma das maiores lutas da história do Chile passar a ter muitas responsabilidades. Fico feliz, porque são jovens cheios determinação política. Puderam experimentar o neoliberalismo como modelo de sociedade e perceberam que é um modelo falido, incapaz de resolver os principais anseios da maioria da população. Esta geração ainda não tem respostas sobre o que possa vir, mas está disposta a ser parte ativa da luta anticapitalista que se manifesta em muitas parte do mundo hoje. E através dessa prática construir algo novo, sobre novas bases, um mundo “onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”, como diria Rosa Luxemburgo.

Este é o último post da estada no Chile. Eu retorno ao Brasil, mas a luta por aquí continuará com muita força. E como eu sou também parte desta nova geração, não poderia abrir mão de minha responsabilidade. Volto ao Brasil com a memória viva e esperança intacta. Para construir com muitos jovens este novo futuro. Acredito na rebeldia e capacidade de luta da juventude brasileira e como os chilenos também marcaremos uma nova página em nossa história.

Hasta la Vitoria!
Thalie

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